Aylan Kurdi e as opções jornalísticas

Não tem como negar, a grande pauta dos últimos dias foi a foto (ou as fotos) do menininho Aylan Kurdi morto na beira da praia na Turquia.

Embora outras imagens similares já tenham sido feitas.. esta parece que foi clicada na hora certa e viralizou… e a causa dos refugiados na Europa ganhou nome, rosto…

Enquanto se via só números, quantidades de corpos mortos dentro do mar… grupos imensos de pessoas tentando passar barreiras… parece que tudo estava diluído… mas com Aylan, bonitinho, branquinho, bem vestidinho, tão pequenininho, expulso do mar para ser visto ali naquela areia causou a empatia e a identificação necessária para a questão ganhar o devido espaço (merecido)  na pauta midiática europeia e mundial, ganhou emergência…

[ “bombou”, “deu pauta”, feito aquela musica escolhida pelas gravadoras para ficar no lado B do disco que acabou sendo a mais pedida da rádio.. e agora? ]

Mas aqui, para mim,  começou um outro grande perigo… algo que acontece constantemente na mídia de nosso país e também de outros.. e nos afeta: quando  a comoção entorno da história particular em si começa a ganhar da sua causa, do seu contexto e aos poucos  se perdem as devidas conexões… e ao invés de,  a partir da narrativa do  micro, humanizada, ajudar a fazer a sociedade pensar, refletir, compreender  o contexto macro, gera-se um excesso de aprofundamento no micro, a ponto de se fazer  esquecer  que aquela história não é a única. Quando o jornalismo  faz a opção por colocar no plano de fundo o que deveria ser o enredo principal… quando perde a oportunidade de nos ajudar a entender ou esclarecer questões que vão além de ‘ com quem é casada a tia de Aylan’.  É o risco de seguir a mesma lógica do  ‘celebrity journalism’,  da sociedade do espetáculo… (E  acho que ficou claro aqui que eu sou contra a história dele ter sido contada. Foi ótimo. Acho que buscar a história pessoal dele,  escutar seu pai, tudo isto era necessário, uma boa história bem contada tem um poder imenso… levanto aqui outras questões …)

E senti que se ensaiou o início disto… entrevistas com o pai do menino ( que felizmente sempre deu declarações muito lucidas, mostrando a tragédia do seu povo para além da sua tragédia pessoal),  porque o Canadá não deu o visto para aquela família, quem foi o menino, fotos do arquivo pessoal, e todo mundo começa a falar o nome e o sobrenome do pequeno Aylan, começa a conhecer toda história do Aylan… a ponto que saber tudo sobre Aylan.. e Aylan pode virar um filme lucrativo, uma capa de revista lucrativa e as lentes se fecharem completamente em cima dele a ponto que não sabermos (ou não querermos saber) mais nada para além da sua história particular… ou passarmos a nos interessar apenas por o desfecho,  por a história do pequeno Aylan e todo resto virar apenas plano de fundo… e só…  até a história cansar e não ‘render’ mais…

Ou, a partir do ‘sucesso’ midiático da foto e da história do pequeno Aylan, começarmos a ver publicadas uma avalanche de histórias particulares, doloridas obviamente, de tantos outros refugiados.. e cada dia um deles passar a ser “a historia da vez”,  a ponto de talvez saturar e mais uma vez desumanizar nossa tão frágil indignação humanitária (“mais uma”)… quando a escolha da pauta perde o sentido maior e a busca da audiência é o principal  elemento motivador, tudo se torna perigoso…

Lembrei-me muito do pensamento do professor e jornalista Elson Faxina, de algumas palestras que já vi dele e algumas coisas que li (indico a todos estudantes de jornalismo:  leiam e escutem as palavras do Elson Faxina ) … ele muito crítico quando reconhece que em grande parte se faz jornalismo a serviço do mercado e não da cidadania, da solidariedade.   Encontrei estas frases em um texto de uma de suas palestras:

“Somos construtores de imaginários, que resultam numa sociedade. Nosso papel é construir sociedade”

“Por isso, devemos sempre nos perguntar: nossas reportagens, notícias, programas, nossos boletins, jornais, rádios e televisões estão ajudando a criar uma nova sociedade? Se sim, perfeito. Se não, que pena!”

[Bem, era para ser só um comentário, os meus devaneios e pensamentos aleatórios.. mas sempre acabo escrevendo muito… rsrsrsr]

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