Participação juvenil: para além do querer pessoal

Ontem, 15 de setembro foi comemorado o Dia Internacional da Democracia,  estabelecido pela Assembleia Geral da ONU em 2007,  e o tema escolhido para 2014 foi “Participação da juventude na democracia”.

sina-5-manifestaciones-en-MadridPrimavera árabe,  Indignados na Espanha, Islândia, Occupy Wall Street e as manifestações brasileiras de junho de 2013: revoltas e protestos de massa que eclodiram, protagonizados principalmente por jovens e contando com novas formas de articulação e comunicação,  através das redes sociais e outras plataformas que fogem das vias tradicionais conhecidas como caminhos para construção da democracia.

Isto com certeza inspirou a escolha da temática, acrescentando-se o dado (ONU) de que esta é a geração de jovens mais numerosa da história, com 1,8 bilhões de homens e mulheres entre 15 e 24 anos. Eles são um quinto da população mundial e estão mais concentrados  em países pobres e em desenvolvimento, onde muitas vezes não existem democracias fortes ou as que já se consolidaram ainda não conseguem estabelecer um estado de direitos sociais plenos a todos os cidadãos.  Já segundo dados do Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), 140 milhões  dos habitantes  da nossa região latinoamericana tem entre 15 e 29 anos, o que representa um quarto da população. Segundo o Censo de 2010, no Brasil são 51,3 milhões (26% da população) nesta mesma faixa-etária.

Então, embora não seja cientista política nem “Expert”, inspirada na data decidi fazer alguns comentários.

O tema da participação política juvenil e democracia sempre gera controvérsias. Criou-se um mito de que a juventude de hoje é apática e pouco participativa e para “provar a teoria” se faz comparação com uma juventude politizada e ‘hiper participativa’ nos anos 60 e 70, sem levar em considerações contextos históricos e sociais. Então, com o “boom” das manifestações recentes, vi e li uma enxurrada de artigos sobre as necessidades de análise das novas formas de participação e finalmente alguns pesquisadores que já  estudam e debatem isto há anos foram “escutados”, citados e um pouco menos de senso-comum  foi publicado em blogs, revistas e jornais.

Mas insisto: as reflexões em torno deste tema num sentido mais amplo não são tão novas, nem no mundo, nem no Brasil.  Lembro-me, por exemplo, de duas pesquisas : a do Projeto Juventude, realizada em 2003 e 2004 e outra que tive um contato um pouco  mais direto, organizada pelo IBASE e pelo Instituto Polis, e publicada em janeiro de 2006, entitulada “Juventude Brasileira e Democracia: Participação, esferas públicas e políticas”, já traziam reflexões neste sentido.  Nesta última, pontuava-se justo que os dados não configuravam uma recusa participativa na esfera pública, mas ausência de confiança nos canais institucionais e nas formas tradicionais de fazer política, como sindicatos, partidos políticos e entidades estudantis. Estas são características recorrentes em vários estudos, tanto das democracias consolidadas como das emergentes.  Na mesma pesquisa, 28,1% dos jovens que foram entrevistados informaram fazer parte de algum grupo, que como experiência associativa voluntária que demonstra alguma capacidade de articulação e organização.

Já em 2013, foi realizada em todo o território nacional  a Pesquisa sobre Perfil e Opinião da Juventude Brasileira, organizada pela Secretaria Nacional de Juventude, em parceria com a Unesco. E podemos fazer, a partir de alguns dados, reflexões similares. Quanto à participação política, a maioria dos entrevistados responderam “não gosto de política, não me envolvo” (38%), ao mesmo tempo que pouco mais de 54% dos jovens consideram muito importante a “percepção do grau de importância da política”. Já quando perguntados sobre as ‘formas de atuação pode ajudar mais a mudar ou a melhorar as coisas no Brasil’ as alternativas  de mobilização das ruas (45%), bem como participação em associações e ações coletivas (44%) se sobressaíram em relação a participação em conferências e audiências públicas (35%) e atuação em partidos políticos (30%).

O que reforça que nosso modelo político democrático precisa passar por reformas e que esta discussão não nasceu o ano passado. Desde as pesquisas de 10 anos atrás até as mais recentes apontam como um grande desafio o aumento da capacidade de escuta e de fortalecimento de canais que auxiliem a desenvolver a cidadania juvenil no país. Mas este não é o único.

O professor Paulo Carrano, um dos membros da equipe técnica da citada pesquisa do IBASE, em um artigo que dialogava justo com seus dados , pontuou um elemento interessante: a relação entre as condições materiais e de vida e a participação social e política:  “Antes mesmo de se buscar saber as razões pelas quais os jovens participam mais ou menos da vida social e política do país, é preciso indagar sobre as condições que possuem para exercer participação social básica num quadro ampliado de direitos públicos relacionados com o acesso à educação, à cultura, ao lazer, ao trabalho e a tantos outros planos existenciais que podem fazer uma vida digna”.

Nos últimos 30 anos quando começou a democratização de vários países, especialmente em nosso continente, os regimes eleitos  não conseguiram atender de imediato  às necessidades da sociedade, mas estamos percorrendo um caminho. As ditaduras deixaram um legado de dívidas e crises econômicas, acentuaram desigualdades e talvez o pior: uma herança cultural de violência, inclusive  institucionalizada, e de estrutura de ensino fragmentada, de não acesso à informação, dentre tantas outras outras.  Por isso, a democracia deve ser considerada um valor universal  e deve ser aprimorada, repensada, melhorada, mas não negada.  E é preciso entender, que no nosso país pelo menos, com a  democracia já conquistada, as pautas desta geração são outras.

E embora saibamos  que nunca teremos os  100% dos jovens ativos e  participativos, a cidadania ativa  precisa ser considerada um direito juvenil, e que depende de outras premissas e direitos. E no Brasil, ela já configura no nosso Estatuto da Juventude (aprovado em 2013) : “Direito à cidadania, à participação social e política e à representação juvenil”.

Os jovens acreditam nas suas capacidades e de alguma forma, aspiram abertura de canais de participação, onde possam ser ouvidos e possam a partir daí ver resultados e viver as transformações, e não esperá-las para as próximas gerações jovens. São novas relações de espaço e tempo, e a necessidade de sanar o nosso debito social com a juventude ‘é pra ontem’.  E de alguma forma, inclusive novas formas, estamos percebendo uma maior participação dos jovens nos processos democráticos.

Jakeline Lira

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