Eu preferiria ser um menino

Quantas de nós, mulheres, já não pensamos ou dissemos isto alguma vez na vida? Eu mesmo admito que várias.

E na resposta à simples pergunta “por quê?” contestando esta frase está a resposta do quanto nossa  sociedade ainda precisa evoluir…

Na verdade, a gente não queria (não quer) ser menino, a gente queria (quer) igualdade de direitos, justiça…

Fonte da imagem: http://www.zenquility.com
Fonte da imagem: http://www.zenquility.com

Mesmo numa brincadeira ligada a questões anatômicas ou biológicas, como o  problema de “fazer xixi” numa festa. O fato do “detalhe” de se saber que  haveria centenas de mulheres numa festa e este “tópico” não ser levado em  conta na hora de sua organização traz algo implícito.

Porque sou bem antinaturalista. Não desmereço nem diminuo as diferenças biológicas ou neurologicas, mas de fato nunca me convencem nem explicam tudo.  E determinismos ou conceito de tradição como essência inerte não fazem parte da minha linha de pensamento.

Mesmo identidades aparentemente mais sólidas, como de mulher e homem escondem negociações de sentido, elas se constróem e se reconstróem porque são também  identidades culturais e como tal não são imutáveis.

(Não falo de identidade/s em termos individuais, cada ser humano faz sua propria sintese e as subjetivações escapam a qualquer lógica matemática. Sem  dúvida um homem é diferente de uma mulher, mas cada mulher é igualmente diferente de todas as outras mulheres e cada homem diferente de todos os outros homens. )

Já segundo à filosofia se fala mais em “tradições”, no plural. E por serem construídas a partir da interpretação e da apropriação do passado, de acordo  com interesses ou perspectivas definidos pelas relações sociais existentes num grupo, classe ou povo, são consideradas construções ideológicas.

Então até que ponto uma tradição de enfiar espadas num touro até ele morrer ou de fazer circuncisão em meninas precisam ser mantidas tal qual sempre foram ou por que elas seriam necessárias na manutenção da identidade desse ou daquele povo?

Mas voltando à minha questão da identidade do ser menina ( se é que alguém entendeu que esta era minha questão..mas tudo bem..).. tenho a impressão de que culturalmente, apesar de receber tantas características humanizadas e humanitárias, às vezes até quase divinas, a mulher tem dificuldade de ser vista como gente.

E apesar de tantas mudanças culturais, de alguma forma esta ‘objetificação’ da construção simbólica da mulher se perpetua… e consequentemente seu reflexo nas relações de poder.
Saimos (ou ainda não em muitos países..) de uma mulher objeto muito ligada à ideia de propriedade masculina, objeto comprado, para uma mulher objeto de consumo e uso, mesmo que não haja a ideia da pertença (nas relações afetivas e laborais).
Então, sendo “meu” ou para “meu uso” eu posso apreciar, brincar, quebrar..

O quão desumano acharia alguns homens se fossem submetidos à rotina de trabalhar 9 horas por dia, estudar, perder horas em transportes públicos, passar a roupa, fazer a janta, varrer a casa e ainda  ninar o bebê, mesmo estando gripados ou com qualquer outra enfermidade? E por que para as mulheres não seria/é?  Por que diversas situações, se vivenciadas por mulheres, são consideradas algo “normal” ? (e é porque não falei em ‘coisas’ psicológicas, como gracinhas, insultos..)

Mulher não é máquina, mulher não é brinquedo, mulher não é objeto. Por outro lado, embora às vezes pareça, mulher também não é super-heroína, mulher não é anjo. MULHER É SER HUMANO. E é desse reconhecimento de humanidade, no sentido básico de
ser gente, que talvez precise ficar mais claro na construção da sua identidade para o avanço no reconhecimento de seus direitos ( que são simplesmente os direitos.. humanos!)

Como colocou a subsecretária Geral das Nações Unidas e Diretora Executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, em sua mensagem para o Dia Internacional  da mulher deste ano:
“Por isso, temos que aproveitar as lições aprendidas e a certeza de que a  igualdade a favor das mulheres leva ao progresso de todas e de todos. Temos  que avançar com determinação e coragem, até conquistarmos os Objetivos de  Desenvolvimento do Milênio e a elaboração de uma nova agenda para o  desenvolvimento posterior a 2015.

Neste ponto, não podemos permitir que a metade da população seja deixada para trás. O século XXI deve ser diferente para todas as mulheres e meninas do mundo. Uma menina deve saber que o simples fato de ter nascido menina não implica que deva sofrer uma vida de penúrias e escassez.”

E é por isso que eu sonho com o dia em que nenhuma menina diga que queira ser menino.. não pelos motivos que dizemos, mesmo em tom de brincadeira, hoje.. porque culturalmente não vai ter mais significado nem sentido…

Jakeline Lira

PS: Deixo aqui um lindo poema postado por minha amiga Ivone Agrelli hoje no facebook: ESSAS

“Essas que se embrenharam mata a dentro e se negaram aos colonizadores
Essas que levaram chibatadas e fundaram quilombos
Essas que pariram e criaram filhas e filhos e as que não pariram
Essas que clamaram por escolas e derrubaram muros com pontas de dedo
Essas que escreveram e as que nem assinavam o nome
Essas que quiseram ser cidadãs e sonharam com todas votando
Essas que ocuparam ruas e praças e as que ficaram em casa
Essas que trabalharam nas fábricas e com enxadas no campo
Essas que foram datilógrafas, secretárias e doutoras e lavadeiras
Essas que não se comportaram bem e que tudo fizeram sem pedir licença
Essas que desafinaram o coro do destino e abriram alas

Essas somos nós.”

(ABREALAS – ESSAS SOMOS NÓS- Poema de Schuma Schumaher)

———————-

Links interessantes ligados a questões femininas:

La persistencia de discrepancias en el progreso de mujeres y niñas pone en peligro el desarrollo  

Mensagem da Diretora Executiva da ONU Mulheres para o Dia Internacional das Mulheres 2014

Mulheres jovens são as mais propensas a ficar desempregadas no Brasil, aponta relatório da OIT

E a publicidade começa a divorciar-se da mulher…

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Um comentário

  1. Jak, muito legal o texto. Ótimas pontuações. Só gostaria de acrescentar uma reflexão masculina. Costumo dizer que metade do que as mulheres sofrem surge do fato de elas quererem construir a contemporaneidade ainda exercendo o machismo de antigamente. Isso mesmo! Escolhem trabalhar 12 horas, parir filhos e assumir casas e, o pior, casar com provedores que não estão dispostos a dividir a manutenção do dia a dia do casal. Como essas, conheço milhões.

    Mas esse não é o ponto. Pergunte a um homem que resolveu sair do modelo machista ensinado por mamãe, papai e família o que ele passa no dia a dia… “E as namorada?” “Será que ele é veado? Já tem 30, doutorado, viaja o mundo e ainda não tem nem namorada… nunca vi ele raparigando!”

    Tal como a mulher, a vida do homem só é fácil se ele aceitar o modelo machista existente, caso contrário o inferno baixa em banda larga na vida desse indivíduo. Mesmo assim, ainda pode ser piorada caso esse seja homossexual.

    Numa forma bem genérica de falar, quando uma menina voltar a repetir “queria ser menino”, ela tem que corrigir a frase para “queria ser menino branco heterossexual e de orientação cristã”… Pois, esse é o modelo perfeito para a militância do machismo. Assim como a mulher gay sofre, o homem gay também; Assim como a mulher do candomblé sofre, o homem do mesmo sincretismo também, assim como a mulher feminista tem a vida dificultada pelo preconceito, o homem feminista também.

    Temos que reconstruir nossas identidade culturais sem os sustentáculos do modelo machista de antigamente em prol da igualdade dos gêneros (das orientações religiosas, das sexualidades e das etnicidades).

    Quanto as futilidades que algumas moças costumam reproduzir, tal como, “mulher sofre pela beleza, menino pode ser largados”. Essa questão se soluciona quando as mesmas meninas param de chamar o metrossexual de gay e começam a exigir dos meninos uma beleza masculina que só se ver em revistas (assim como os meninos exigem das meninas).

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