“É tenso” (Reflexão sobre os jovens e o consumo de drogas e bebidas alcoolicas – questões culturais)

Li  ultimamente dois artigos que me chamaram atenção. Um no Boletim Salesiano das Antilhas de janeiro/fevereiro deste ano, escrito pelo padre Humberto Perdomo, com título provocador “Tiene 14 años y bebe para divertirse”. O outro estava no portal G1, que falava de trabalhos acadêmicos das áreas de letras e de psiquiatria que abordavam a relação entre as letras do gênero musical “Sertanejo” e o consumo de álcool no Brasil. Aí veio a morte do Chorão, vocalista da banda Charlie Brown Jr e ídolo de milhares de jovens e adolescentes do nosso país e a discussão sobre drogas veio novamente à tona em vários espaços midiáticos, incluindo as redes sociais.

A partir daí, resolvi abordar aqui a temática das drogas no seu sentido ‘não terapeutico’.  E admito não estou interessada em trazer respostas, afinal nem especialista no assunto eu sou, quero apenas trazer alguns dados e algumas provocações.

No Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e divulgado no segundo semestre do ano passado, o Brasil é o segundo maior consumidor de cocaína e derivados (incluindo o crack), atrás apenas dos Estados Unidos, alterando assim até a rota do tráfico: de lugar  de ‘passagem’ desta droga, o país passou a ser um dos principais destinos finais.  O estudo também mostra que o contato com a droga começa cedo: quase metade (45%) dos usuários provou a substância pela primeira vez antes dos 18 anos. Um dos fatores apontados pelo aumento do consumo seria a diminuição do seu custo. E se a cocaína era o champanhe ou o uísque das drogas e hoje é  a cerveja ou a cachaça. É com estas duas bebidas e sem metáforas que os dados se tornam ainda mais alarmantes.

Segundo outra pesquisa, o Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas, realizada pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) e pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), em 2004, o consumo de álcool por adolescentes de 12 a 17 anos já atinge 54% dos entrevistados (!) e desses, 7% já preenchiam os critérios para dependência do álcool. Já dentre os jovens entre 18 e 24 anos, 78% já fizeram uso do álcool e 19% deles são dependentes, em outras palavras quase 1/5 da população jovem que bebe já é dependente.

Um outro estudo divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU), em comparação com os países da América Latina, o Brasil aparece em terceiro lugar no consumo de álcool entre os adolescentes.

Não tenho bons conhecimentos sanitaristas e clínicos para análises mais aprofundadas, mas em todas reportagens ou artigos que eu já li sobre o assunto, os especialistas deixam claro que o consumo precoce de drogas, incluindo o álcool , afetam o desenvolvimento do cérebro e aumentam muito mais os riscos de dependência química e alcoolismo.

fernando-e-sorocaba-e-tensoÉ sem dúvida um problema de saúde pública e que carece de políticas públicas melhores, e apesar de afetar ricos e pobres, a situação financeira individual ainda faz diferença no tratamento dado pela ação governamental e pela sociedade. Outras questões também sempre estão envolvidas, como violência, o tráfico, crimes de lavagem de dinheiro e por aí vai… o que é muito sério, mas não é no que eu vou ‘me prender’ neste momento. Eu me pergunto se percebemos a ampla gama de sentidos do uso das drogas, a partir inclusive das diferentes drogas. Como os adolescentes e jovem encaram as drogas? O que elas simbolizam culturalmente? O que significam? A que nós mesmos como educadores nos referimos quando falamos de drogas? Tenho a impressão que a sociedade talvez esteja mais “drogada” do que o que percebemos…

Felipe Ghiardo, pesquisador do CIDPA (Chile), em um de seus artigos  baseado numa pesquisa na qual participou na qualidade de investigador, afirma algo que acontece por aqui também: que quando os jovens falam de ‘drogas’, geralmente falam de drogas ilegais.

Assim um jovem que tem o discurso “alheio” de quem nunca fumou maconha ou crack, colocando as mesmas como “negativas” – reproduzindo todo um discurso  oficial “aprendido” e ao  percebendo os sujeitos que são usuários como pessoas enquadradas dentro de um esteriótipo – é o mesmo jovem que já fumou cigarro e caiu bêbado em alguma festa…

Com a morte de Chorão e sua repercussão, o vocalista da banda Detonautas, Tico Santa Cruz,  “soltou o verbo” e divulgou pelas redes sociais uma mensagem muito pertinente e que trago aqui um trecho:

Segundo, é que gostaria de saber que moral que tem uma sociedade tabagista, alcoólatra, que consome remédios ( DROGAS ) de todos os tipos – para dormir, para emagrecer, anabolizantes, estimulantes vendidos em farmácias e mais um monte de porcarias legalizadas – para falar do que o cara fez ou deixou fazer. Isso não é problema de ninguém! […]

Terceiro é que estão repetindo um monte de baboseiras com relação a questão do “Sexo, drogas e Rock n’ roll” – mas quando eu ligo rádio e a TV escuto o tempo inteiro um monte de artistas de outros gêneros estimulando bebedeira, sacanagem, vulgaridade e putaria para todo tipo de público incluindo crianças. Ou as letras desses Sertanejos e outros estilos estão tratando de assuntos sérios e eu sou surdo e nunca ouvi?

Com certeza o Tico seria apoiado por Mariana Lioto, autora da dissertação de Mestrado “Felicidade engarrafada: bebidas alcoolicas e música sertaneja”, que sustenta a tese de que a música sertaneja não só reflete um comportamento já existente, mas ajuda a “naturalizar” e incentiva o hábito de beber, fazendo associações positivas com mulheres, festas, fuga do trabalho, e escondendo os efeitos negativos ( abaixo o link para dissertação)

Na mesma reportagem na qual tomei conhecimento da dissertação acima citada, a psicóloga clínica Francismari Barbi, autora do trabalho “A influência das letras de música sertaneja no consumo de álcool” fez a seguinte afirmação: “A música possui um elo estreito e forte com a sociedade e a cultura vigente. Isso pode contribuir para que as pessoas associem bebida com diversão ou com a ‘cura’ de diversos problemas, principalmente quando é evidenciado este apelo em suas letras”.

A partir disso,  traduzo aqui o trecho do artigo do P. Perdomo que complementa este pensamento:

Quanto anos tem? 14. Que bebes? Run, cerveja… Quanto bebes? Não sei, começo a beber e começo a me alegrar, não sei até quanto. Seus pais sabe que bebes? Sim, mas não sabem a quantidade. Por que bebes? Para me divertir com meus  amigos, esquecer os problemas.

Há, portanto, uma motivação intrapsíquica que o obriga a ‘esquecer’ algo que na consciência causa dor e por outra parte tem um componente social que para ser aceito no grupo e ‘estar com os amigos’ deve seguir seus mesmos padrões de conduta”.

Aí eu me perguntei e o que este menino “escuta” nesta diversão? Se fosse um jovem brasileiro poderíamos cogitar várias bandas e musicas… dentre as quais com certeza apareceria alguma de bebedeira…

Não sou contra nenhum gênero musical de forma geral, mas aqui o sertanejo foi utilizado a título de exemplo de como os bens de consumo simbólico, dentre eles a música, permeiam nosso cotidiano, influenciam e realimentam costumes, ideologias e modelos culturais de uma sociedade e não podemos perder este olhar crítico sobre o que parece apenas ‘pequenos detalhes’… Claro que há outros gêneros que  trazem em seu repertório músicas que fazem apologia ao álcool, às drogas, banalizam e naturalizam situações graves.. isto não é privilegio da música nem muito menos do  gênero sertanejo, mas que este por ser tão ‘pop’ no país inteiro, especialmente agora com o sertanejo universitário, não foi uma escolha aleatória para exemplificação.

Mas nestas duas últimas citações trago talvez outros elementos pertinentes aos “sentidos” atribuídos ao uso de drogas, mas especificamente o alcool:  aceitação e vivência em grupo, cura ou fuga de problemas, desafio pessoal, teste dos limites…

Talvez a gente viva muito “batendo na tecla da demonização das drogas”, centrando nosso discurso no objeto e não nos sujeitos. Será que “Não utilize drogas porque faz mal para saúde, danifica seu cérebro, seu corpo, sua vida” é o discurso preventivo que temos que fazer? Será que é este tipo de discurso dialoga com as necessidades dos adolescentes e jovens?  Necessidades estas também sociais e simbólicas…

E no mais… o que temos a oferecer além de discursos?

Jakeline Lira

Link da dissertação de mestrado:

http://cac-php.unioeste.br/pos/media/File/letras/mariana_lioto%281%29.pdf

Link do “desabafo” de Tico Santa Cruz:

http://whiplash.net/materias/news_829/175073-charliebrownjr.html#ixzz2OCsLDbYV

Publicação “Aproximando-nos ao sentido do uso de drogas e da prevenção a partir dos jovens” (2005), por Felipe Ghiardo

http://www.cdvhs.org.br/sispub/cgi-bin/myPage.fcgi?idWebSite=1268&idSecao=3120&idNota=14494&infoAdicional=publicacao&pagOrigem=pagCapa&acao=mostrarMateria&iframe=1

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