Juventude em pauta: Reconhecendo os desafios do presente

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Parafraseando a música de Belchior dos anos 70, nossos jovens não são mais os mesmos nem vivem como seus pais. Nos últimos tempos, o mundo experimenta mudanças cada vez mais profundas e aceleradas e temos de nos perguntar sobre qual o lugar social dos jovens.

Em um ano em que o país recebe a Jornada Mundial da Juventude e a Igreja do Brasil traz na Campanha da Fraternidade a proposta de olhar a realidade dos jovens, espero com este espaço colocar literalmente a “juventude em pauta”, trazendo elementos que nos ajudem a refletir sobre esta importante parcela da sociedade.

Uma das primeiras coisas que quero abordar é sobre como encaramos o presente e o futuro. Tenho a sensação, nas minhas andanças, escutas, convivências e também leituras, que estes dois “tempos” por muitas vezes são pensados separadamente, inclusive pelos próprios jovens.

Será que paramos para pensar que em frases como “olha o seu futuro”, “jovem, futuro do Brasil”, “futuro do amanhã”, poderemos estar jogando toda uma carga de responsabilidade em cima dos jovens, como se apenas eles teriam a solução do país na mão? E pior, às vezes individualizamos esta responsabilidade e aceitamos uma sociedade onde histórias vencedoras são exceção, e não regra.

E o presente não anda nada bom para os nossos jovens. A juventude brasileira, em termos absolutos, constitui um dos maiores segmentos da população. Há em torno de 51 milhões de jovens entre 15 e 29 anos (faixa etária considerada ‘jovem’ pelas politicas oficiais), o que segundo o censo do IBGE (2010) seria um quarto da população. Destes, apesar do reconhecimento de muitos avanços na última década, temos dados preocupantes: 29,5% dos jovens considerados pobres vivem no campo e outros dois milhões vivem em favelas; 6,5 milhões de jovens não estudam, nem trabalham (PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2006) e quase metade dos desempregados é jovem (IBGE, 2007).

Temos uma alta proporção de jovens entre 18 e 24 anos que não completaram o ensino médio, e outros 22% da população de jovens entre 18 e 19 anos que não concluíram nem o ensino fundamental e estão fora da escola.

Em relação à violência, o Brasil é considerado o 4º país mais violento para a faixa etária de 0 a 19 anos por causa do alto e crescente índice de assassinatos de crianças e adolescentes nos últimos 30 anos. Em 2006, do total de mortes de jovens do sexo masculino, 77% foram por causas externas, principalmente fruto de homicídios. Esses dados continuam alarmantes e esses números não parecem ter sofrido muitas mudanças. A cor dos jovens também merece atenção: as mortes por assassinato entre os jovens negros no país são, proporcionalmente, duas vezes e meia maiores do que entre os jovens brancos. Em 2010, o índice de mortes violentas de jovens negros foi de 72, para cada 100 mil habitantes; enquanto entre os jovens brancos foi de 28,3 por 100 mil habitantes.

Esses dados não são fruto do acaso. O terreno é que não veio sendo preparado de longas datas e o nosso país tem hoje então uma imensa dívida social com sua juventude.

Em 1985, a ONU promulgou o Ano Mundial da Juventude, desencadeando nesta década uma série de ações por meio de suas agências que repercutiram em toda América Latina, pelo menos no âmbito da discussão e reconhecimento juvenil. Por exemplo, no Brasil, a preocupação (muito válida, obviamente) centrou-se apenas na criança e no adolescente. Assim, após os 18 anos o Estado não tinha nenhuma política especifica, direcionada para os jovens, como se já estivesse ‘preparado’, o que sabemos que não é uma verdade.

A juventude foi um dos últimos segmentos do país a ganhar reconhecimento para as políticas públicas. Embora a discussão sobre juventude já venha ocorrendo há mais de uma década e em 2005 tenham se efetivado o Conselho Nacional de Juventude e a Secretaria Nacional de Juventude, somente em julho de 2010 (depois de sete anos de tramitação) é que foi aprovada, por exemplo, a Proposta de Emenda Constitucional nº 65, chamada de PEC da Juventude, que inseriu o termo “jovem” no capítulo dos Direitos e Garantias Fundamentais da Constituição Federal, assegurando ao segmento direitos que já foram garantidos constitucionalmente às crianças, adolescentes, idosos, indígenas e mulheres.

Assim, não dá para falar em futuro sem se comprometer com o presente. E temos mais um agravante: a sociedade está envelhecendo, até 2020 o Brasil deve ter quase seis milhões de pessoas com mais de 80 anos. E são estes jovens pouco contemplados pelas políticas públicas os responsáveis pelo futuro, são eles que irão sustentar os idosos de amanhã.

O Brasil vive um momento propício de oportunidades, de crescimento. Temos de fiscalizar e lutar para que as iniciativas estatais se integrem, projetos de sucesso sejam exemplo para políticas públicas e que nossos jovens sejam cada vez mais escutados. Afinal, eles sabem suas necessidades e muitas vezes até já apontam caminhos para as respostas. Mas, sem voz e sozinhos eles não conseguirão construir um novo presente e no futuro, não serão mais jovens. As especificidades do ser jovem precisam ser reconhecidas e garantidas por lei (e efetivadas) hoje. Presente e futuro são complementares…

Publicado em : http://www.boletimsalesiano.org.br/ e na edição especial CF 2013 do Boletim Salesiano Digital (fevereiro 2013)

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