Diário de viagem: Romarias do Juazeiro – olhar pessoal

SDC10189Voltando a postar no blog: depois deste tempinho com blog “parado” resolvi voltar a escrever a partir desta viagem: estou no Juazeiro do Norte-CE. Pedi para vir junto com a banda do Pe. João Carlos, que vem todos os anos nestas épocas de romarias. Sempre tive curiosidade de veer a devoção popular num momento como este, de vivenciar isto, de conseguir olhar com a mente e o coração.

Ainda não entrevistei nem conversei com ninguém de maneira mais “formal”, até agora só observei o movimento, as pessoas, os lugares… eu sou nordestina, tenho família no sertão pernambucano, mas mesmo tendo uma noção mais próxima que alguém de outra região, nunca tinha vivenciado um momento como este, de ver uma das romarias do Juazeiro do Norte.. eu, por exemplo, nunca tinha visto alguém com vestes de pagar promessa (ou algo parecido), muitas pessoas, inclusive crianças, vem com túnicas (pretas, em grande maioria), imitando a batina do “Padim Ciço”; Também vi pela manhã as pessoas escrevendo seus nomes ao redor da grande estátua, eu já tinha visto os nomes lá escritos, mas como é minha primeira vez numa romaria, vi pela primeira vez as filas imensas para subir lá e escrever seus nomes, enrolar fitas… à noite voltei lá e apreciei a vista da cidade (que à noite ficam só luzes, bonito, por o horto ser alto, parece até vista de avião decolando) e olhei a estátua iluminada (agora quase sem ninguém, só alguns meninos, provavelmente moradores dos arredores) e aí sim tive a oportunidade de subir e ver a imensa quantidades de escritas, velhas e novas, diferentes canetas, diferentes letras… ali estavam os nomes de inumeras pessoas, historias de vida de gente sofrida que alcançou alguma graça ou pretende alcançar pela fé…

Embora muitos recriminem esse devocionismo, até eu percebo que há exageros, mas isso é comum, uma coisa para mim ficou muito clara, principalmente através das missas, e inclusive abro um parênteses para este detalhe, são muitas missas: umas 5 na carreta-palco do Pe. João Carlos, instalada aqui no Horto ao lado da estátua e à frente do Casarão, e outras 4 ou 5 na futura Igreja do Bom Jesus do Horto, um pouco mais afastada. O que ficou claro para mim é que, apesar de todo “culto” ao Padre Cícero, os devotos não tem dúvidas em relação a Deus, a Jesus, não vi nenhuma manifestação de

“Substituição” ou “equidade”, Jesus é o primeiro, passa na frente para eles, eles entendem que o “Padim” foi e é um instrumento de Deus na vida deles e isso eu achei muito bonito.

Tive oportunidade de em uma das missas ficar na hora da coleta, que é feita de forma muito espontânea, tem um baú à frente e circulamos com bolsinha no meio do povo, e você vê gente sofrida fazendo questão de colocar uma moedinha e outros até colocando notas de R$ 10,00 ou R$20,00… fiquei imaginando que muitos até juntam e já vem para cá com o dinheirinho da oferta, sabe? Vem de pau-de-arara ao invés de vir com mais conforto e oferta o que pode. Essa verba arrecadada é para manutenção da estrutura do Horto, a visita no Casarão, por exemplo, é gratuita, o ambiente é bem cuidado, tem banheiros, água, etc, e também para a construção da igreja do Horto, obra grandiosa e muito despendiosa, mas que com a graça de Deus e a generosidade dos romeiros, vai ficar pronta, nem que seja nos próximos 20 anos, afinal, aqui é a “Aparecida” do Nordeste. E é bonito porque é algo espontâneo, há pedido no momento do ofertório e pronto, e não porque o presidente da celebração ficou pressionando, não há nenhum tipo de constrangimento se não der nada.

A romaria do Juazeiro, para os romeiros, é sacrifício,redenção e renovação. Aqui é como uma nova Jerusalém, uma Meca, um lugar onde se vem para oferecer sacrifício, ouvir palavra de Deus, agradecer ou pedir, e sair daqui renovado… as filas de confissão são imensas, as missas têm boa participação, e para mim as homilias são essenciais, a gente sente a carencia e a vontade de escutar um conselho, uma palavra de referencia para vida deles, entender melhor a bíblia. Para gente que vive entupido de informação, como eu, e tem muito acesso a livros, vídeos, formas de instrução, pode-se nem se dar o devido valor a essas coisas, mas para quem num tem… vejo por distrito (tpo “zona rural” da cidade) onde moram meus parentes no interior pernambucano, eles têm missa uma vez no mês, nenhuma estrutura de organização pastoral, poucas pessoas com mais conhecimento pra gerar iniciativas de desenvolvimento local.. e muitos romeiros vem de lugares assim. Eles vem se abastecer de Deus para seguir a lida… acho que independente de religião, o ser humano tem necessidade, até mesmo quem não acredita em Deus.. se renovar, (re)pensar na sua jornada, “fazer uma faxina interior”, “jogar o “lixo fora”, agradecer o que foi conquistado, mas sem egoísmo de mérito simplesmente pessoal (e por isso o sacrifício no agradecimento). Para se tornar um homem/uma mulher novo/a, uns vão a Santiago de Compostela, outros vão para o Tibet, outros escalam montanhas, outros vem para o Juazeiro…enfim, cada um com sua forma de acreditar e de ser “humano”, tentando ser alguém melhor…

Além daqui do horto, ontem descemos para o centro da Cidade, vi a Basílica de Nossa Senhora das Dores, o Museu e o Memorial do Pe. Cícero. Infelizmente não deu para entrar na Igreja do Socorro, onde o Pe. Cícero está enterrado, pois estava acontecendo uma missa com o bispo Dom Fernando Panico, da diocese do Crato, a qual pertence o Juazeiro do Norte.

 

Rapidinhas:

– Já no caminho da vinda, foi possivel encontrar alguns “paus-de-arara” na estrada, isso mesmo: pau-de-arara ainda existe e ainda há muitos romeiros que chegam no juazeiro através deste tipo de transporte

– Amanhã, 01 de novembro, a Estátua do Padre Cícero completará 40 anos,

– Lado ruim: os fogos. Desde as 4h00 da manhã e seguem até de tarde..aff… acho que a cada 30 minutos (ou sei lá se tem alguma seqüência) lá vem a pipoqueira..rs.. mas isso é detalhe pequeno

– Estou hospedada aqui mesmo no Horto (quer dizer, “nós mulheres que viemos”) na residência das irmãs salesianas, muito bom os quartos, a comida, tudo tranquilíssimo…

– Internet aqui no horto é lenta, viu? dificil, estou com o modem da tim do Pe. joão Carlos..  aff.. conseguir postar isso aqui foium milagre..rs..

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2 comentários

  1. Gostei do seu texto “Olhar pessoal” no que diz respeito a Romaria em Juazeiro do Norte.

    Sou de Juazeiro do norte, faço pesquisas sobre a história da cidade de Juazeiro e do padre Cícero Romão. Eu amo minha cidade e já desenvolvir muitos projetos para a melhoria das romarias daqui, porém os gestores não tem interesse em por em prática. Atualmente estou em contato com a Paróquia de N. Srª das Dores para fazer parte da PAstoral do Romeiro, para conhecer mais de perto a situação do Romeiro.

    Seu olhar sobre a romaria foi muito bom…..

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