02 de junho – dia da prostituta (analisando telenovelas…)

Mesmo com todo pesar pela triste notícia que invadiu todos nossos veículos comunicação – a queda do avião da Air Franc e- não será este o assunto que irei abordarh hoje, até porque como já explicitei, a cobertura da imprensa está bem forte e não tenho agora muito o que opinar ou refletir.

Hoje uma noticia mais “peculiar” me chamou atenção: hoje é o dia mundial da prostituta. Pois é, uma das profissões mais antigas do mundo tem seu dia hoje (quer dizer, dia 02 de junho) . A data surgiu de um dia de luta por melhores condições de trabalho e  é reconhecida pela ONU.  Eu não tenho muito acumulo teórico ou sociológico para dar pareceres mais “embasados”, mas me lembrei de uma reflexão que fiz com meus estudos de telenovelas [Sim, eu assisto telenovelas,ou tento pelo menos acompanhar alguma coisa, e assumo numa boa, afinal, sou alguém do campo da comunicação e não posso ser xiita nem preconceituosa… até também como educadores, compreendo que a midia faz parte do cotidiano, até para criticar é preciso conhecer, não é?]

Enfim, além do  entretenimento, acabo fazendo várias observações, discernimento e reflexões (eu viajo..rs)

Então, lembro que quando eu estava fazendo minha análise com novela Paraíso Tropical, embora meu foco fosse outro, chamou-me a atenção o sucesso a personagem Bebel, que era justamente prostituta e pela primeira vez, pelo menos para minha pouca cultura novelística, era um papel em que a condição de prostituição não estava tão “glamourizada” ou suavizada, pois ela tinha um cafetão, haviam outras que trabalhavam no calçadão sendo exploradas. Uma outra personagem, inclusive, tentou entrar “para o ramo” mas não conseguiu e sofreu um pouco (essa sim mostrou mais uma face difícil da profissão,mas claro que tinha um príncipe – personagem de Marcelo Antony – para salvar a mocinha na história..rs)

Já na novela seguinte, “A Favorita”, a “cafetina” (Cilene, se não me engano) era alguém boa, como se fosse uma mãe para as meninas, mesmo mostrando “aspereza” para elas se manterem em forma e bonitas, o clima passado da casa “de família” era absolutamente surreal para mim, a história da personagem “Maria do Céu” então… meu Deus! Talvez se eu fizer uma pesquisa e encontre algum assim eu mude de opinião, mas até então…

E esta veio para somar na freqüência da “suavização” das dificuldades dessa profissão.. poderia até ser algum tema de extensa pesquisa: a imagem  da prostituta nas telenovelas, ou melhor, na teledramaturgia brasileira (aí abrange as miniséries, ec..).

Aí tentando lembrar de outras novelas que tinham prostitutas, não lembrei de muitos nomes, “títulos”, mas é algo relativamente constante…

Enfim, lembrei de uma que tinha um senhor tinha uma casa com várias moças para serem seus objetos de desejo, brinquedinhos e elas se comportavam muito bem, aparentavam até “felizes” e era uma situação totalemente aceita socialmente… como se elas fossem bichinhos de estimação mesmo, e elas fossem “safadas”..

[E eu fico pensando que se ser prostituta fosse verdadeiramente fácil.. sabe aquele senso comum  de “mulher de vida fácil”? pois é… acho horrível essa expressão..vixe..]

Não quero aqui colocar senso moral, mas a telenovela é um produto cultural de grande audiencia, onde  de alguma maneira se constrói e se reconstrói senso-comum da vida cotidiana…então acho um tanto perigoso exemplos de prostituição “tranqüilos”, quase naturais, como o de muitas telenovelas, encobrindo todo um espectro obscuro e difícil… Já pensou uma menina num momento de decisão difícil em sua vida, de necessidade, escolher logo este caminho.. “novela é novela, mas pode acontecer, num é? Encontrar príncipe encantado, ficar rica, ou clientes todos lindos,diversão…” Acredito, segunda a perspectiva de Jesus Martin Barbero, que no processo de recepção, o receptor também é um produtor de significados e que a mídia não manipula pessoas como bonecos, mas há impacto ideológico quando se “glamouriza” ou suaviza, ou se dá ênfase apenas a um aspecto de uma realidade, seja no jornalismo, seja na ficção televisiva.

Além do machismo muitas vezes reforçado, ainda de quebra se molda um aspecto simbólico em torno da prostituta: Ou feliz, tranquilíssima, ou encontra o príncipe encantado.. ou se for alguém infeliz, é  inteligente e normalmente tem o retorno fincanceiro, há muito luxo e riqueza para “compensar”… como receptor vai fazer as mediações disto diante da(s) nossa(s) cultura(s)?

A única novela que me lembro que chegou até fazer tipo “um merchandising social” foi “Belíssima”, em que a personagem de Maria Flor era prostituta-escrava no exterior, e se atentou para questão do tráfico de mulheres, exploração sexual… (Mas é porque ela foi para o estrangeiro, né?)

Sabe, sendo sincera, não acredito que alguém escolha ser prostituta como sua primeira opção profissional… mas nem estou aqui muito acordada para refletir sobre a dimensão do prazer na nossa sociedade, do “usos” e de como deve ser se sentir ser humano “objetificado”, indignação, resignação, falta de conscientização… implicando questões dos direitos, dos preconceitos, enfim..

Preferi me deter na minha observação novelística (que eu até pensei que tinha escrito algo quando essas idéias me passaram na cabeça. Afinal, na hora dos estudos, meu vocabulário estava mais afiado e mais embasado.. mas não encontrei essas anotações… deixa para lá… ) mas vou colocar aqui dois trechos que achei nos meus recortes de estudos que ajudam a refletir sobre o que coloquei da telenovela.

A comunicação tem caráter de processo produtor de significação e não de mera circulação de informação, no qual o receptor não é um simples decodificador daquilo que o emissor depositou na mensagem, mas também um produtor.

Dos meios às mediações – Jesus Marin Barbero

(…) Pois a mídia é, se nada mais, cotidiana, uma presença constante em nossa vida diária, enquanto ligamos e desligamos, indo de um espaço, de uma conexão midiática, para outro.(…)

É no mundo mundano que a mídia opera de maneira mais significativa. Ela filtra e molda realidades cotidianas, por meio de suas representações singulares e múltiplas, fornecendo critérios, referências para condução da vida diária, para produção e manutenção do senso comum. E é aqui, no que passa por senso comum, que devemos fundamentar o estudo da mídia. […]

O senso comum compartilhado ou ao menos compartilhável e medida, muitas vezes invisível, de quase todas as coisas. A mídia depende do senso comum. Ela o reproduz, recorre a ele, mas também o explora e distorce.[…]

Por que estudar a mídia? – Roger Silverstone

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