Reflexões II (lixo, educação, auto-ética…)

Ontem voltando para casa , já tarde,umas 19h, fiquei pensando em questões ambientais, ao ver o comércio do centro do Recife fechando… e a enorme quantidade de lixo no chão, apesar das nossas tantas lixeiras espalhadas. Nas paradas de ônibus da Av. Cde. Da Boa Vista, que tem umas 2 ou 3 lixeiras em cada uma, era perceptível na pista, onde os ônibus passam, as embalagens plásticas diversas, especialmente de pipoca, afinal, esta é, acredito, o produto mais vendido pelos profissionais informais… que acho necessário fazer um parênteses para o que pensei na hora: é muito difícil ser profissional informal, o pessoal não tem horário, eram 19h e ainda estavam na rua vendendo coisas, e alguns provavelmente ficam até as 21h30, 22h para pegar pessoal das faculdades… você sente também que há algum comando, algum acordo de conduta, alguém que também já os explora, aquela coisa que “para ocupar e vender naquele espaço, tem que…”, é fogo..

Voltando aos sacos de pipocas e ao nosso lixo espalhado por todas calçadas, vi também pessoas se organizando para dormir nas calçadas, é nessa hora que você vê quem realmente mora ali, porque durante o dia elas estão entupidas de gente passando, gente vendendo coisas, gente pedindo.. a noite a gente vê quem é o “dono” daquele espaço… que misturados com o lixo voando por causa do vento mostram que também são considerados “restos” na sociedade…

Como eu iria escrever ontem, estava mais inspirada sobre questões de educação ambiental, de coisas viáveis.. também refleti sobre o próprio lixo em Recife, porque pela minha vizinhança e por o que escutei já no rádio, principalente em estações AM, é que a coleta do lixo está ruim em toda cidade, aí unida a falta de educação…

Mas, inspirada em algumas vivências e percepções diárias, não vou me fixar no respeito ao meio ambiente, ao espaço em que vivemos, mas em algo ainda mais elementar e que pra mim é a essência.. e não sinto que seja algo “culturalmente inserido” na maioria das pessoas, e isso não interpretem como “que existe uma nata de seres melhores”, não não.. não é algo para se “culpar” individualmente as pessoas, aliás detesto aqueles exemplos comparativos de “Mas fulano era …. se esforçou sozinho e venceu” para justificar problemas, como se um aexceção justificasse a não existência de políticas eficazes e acesso e oportunidade a coisas para todos, mas isso é outro assunto também, amos ao que eu quero classificar como “essencial” que falta…

Não sei bem como nomear, não sei se o nome correto seria o desenvolvimento de uma “autoética”, fundadas numa ética coletiva, mas com a particularidade de cada um em cada situação vivida…

Sinto como que vivemos numa cultura punitiva, que às vezes só se fazem coisas certas “porque eu estou sendo filmado”, “porque se não meu salário vai ser descontado”, “porque tem uma blitz”, “porque eu vou levar multa”, “ porque a igreja ‘x’ manda assim”… é como se o nosso discernimento estivesse condicionado a algo externo.. quer dizer, é como se ele não existisse… e se eu tenho certeza de que ninguém vai me punir, “eu posso” dirigir alcoolizado, “eu posso” jogar lixo no corredor do prédio, ou então se a igreja ‘x’ diz que eu posso bater nos filhos, eu vou bater.. ????

Por isso que há quem defenda a redução da maioridade penal como solução, afinal, pensam que “punir” é o que funciona*, por isso tem deputado dirigindo a 190km/h, bêbado, tranformando o carro numa arma tão perigosa que matou jovens… mas ele achava que “podia”, né? Não achava possível ser punido…

Desde muito pequenos não somos estimulados a desenvolver nossas próprias escolhas como uma construção… a formar o nosso conjunto de valores e desenvolver nossa “auto-ética”. Eu mesmo ( e olhe que estudei em escola particular), não me lembro de terem me estimulado de maneira digamos “pedagógica” a descobrir meus talentos e limites, de ter feito atividades para construir projeto de vida… da gente pensar em situações hipotéticas e se colocar naquelas situações, como a gente agiria, gerar debates em sala de aula… isso eu tive acesso fora do ambiente escolar e acho que com a maioria das pessoas é assim… mesmo que a moral estabelecida aponte num determinado tipo de prática, refletir sobre ela, repensar…

Dizem que a filosofia oriental, as práticas tem mais este caráter de “dentro pra fora”, mas admito minha completa ignorância nisto… (minha inspiração talvez seja mais da cristã mesmo, sei lá)

[Só para fingir que não viajei tanto e dizer que estou sendo pelo menos um pouco coerente] Então, acho que o problema da falta das cidades sujas não é só pensar na educação ambiental (que obviamente envolvem questões muito além do lixo nas ruas) em si, se não, pode se tornar só mais uma disciplina na escola, com alguns resultados pontuais… é fazer as pessoas se pensarem como seres humanos, olharem para dentro de si e também se compreenderem parte de um todo, porque os hábitos só se modificam com uma mudança de mentalidade… afinal, como dizia o Pe. Antônio Vieira, “a pior coisa dos maus costumes é serem costumes, pior ainda que serem maus”…

(e da gente fazer as coisas certas porque nós achamos verdadeiramente que aquilo é a coisa certa a ser feita… não necessariamente porque é a lei que diz que aquilo é certo ou por haver receio de punição…)

*fique claro que eu, Jakeline, sou totalmente contra redução da maioridade penal
Anúncios

Um comentário

  1. Olá? é legal parar para ler os seus textos, são carregados de ang’nhe’eng (palavra de alma boa ou melhor, palavras com energias boas), fica difícil uma tradução, mas é nesse sentido de palavras que “certas” – nem todos nós temos esses dom de sermos tão comunicativos – pessoas falam e que sabemos que é ang’nhe’eng.
    Bem, na verdade queria era “comentar” o que tu estavas a falar em relação ao lixo e no discorrer do texto falas de uma auto-ética. Lembrei, então de um filosofo alemão, Hans Jonas, ele defende uma ética da Responsabilidade. E esta Responsabilidade, tem como, digamos, pano de fundo o cuidado com o meio ambiente. Portanto, a ética que ele propõem, não é mais numa visão puramente antropocêntrica, uma ética do aqui e agora, onde ela mediava as relações entre indivíduos, mas uma ética, que envolva outros elementos, onde o ser humano está inserido. Assim, envolve meio ambiente, o cuidar dar das pessoas – não meramente cuidar, para que o outro faça o mesmo por você – mas seria algo como uma auto-ética, que tu mesma falaste.
    Por que ele propõe esta “nova” ética? Segundo tal filosofo, na obra Princípio Responsabilidade, “A técnica moderna introduziu alterações de tão deferentes escalas, objetos e conseqüências que o quadro da ética anterior já não pode contê-los”. Por isso, é necessário pensar algo mais abrangente, uma ética que não ache absurdo pensar na condição na natureza extra-humana, a biosfera como um todo e nas suas partes, agora sujeitas a nosso poder. Este poder que temos, é tal, que em uma perspectiva tecnológica, há e terá que haver sempre um feedback, do que está sendo produzido, para que haja uma nova produção ou criação. Ou seja, a criação cumulativa, o ambiente artificial em constante expansão, forçando assim a um emprego constante de novas invenções, desta maneira, quando se cria um produto tecnológico este conseqüentemente precisa para “evoluir” de seu estado atual uma nova criação. Portanto, terá que deixar uma deixa para uma criação posterior. Exemplos de evoluções não faltam, o telefone, do automóvel e hoje os vários objetos armazenadores de arquivos eletrônicos cada vez menores. E ao ser criado um novo objeto, mais lixo vai parar na natureza. Em forma de gases e matéria mesmo sólida. Para isto é necessária uma ética que não pense somente no bem-humano, mas também o bem de coisas extra-humana. Parece até um tapa na cara dos “vândalos”, das pessoas que destroem nossas lixeiras, apedrejam escolas, ônibus, pincham bancos de praças e outros bens públicos, com um lema enorme: É do governo! Pobres, não sabem que quem perde somos nós, que estamos usufruido ou pelo menos tentando usufruir.
    É preciso partir de nós a luta para a construção de uma consciência ecológica, é difícil, más não impossível. Defender a natureza é defender a permanência da vida humana na terra e a existência das novas gerações.
    Gostei muito de ler teu texto, principalmente, por que um dos assuntos que acho massa discutir. Iih! Acho que fiz um novo texto srsrsr!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s