A importância dos grupos juvenis

Jakeline Lira

A experiência associativa faz parte da formação humana e ganha maior importância na adolescência e juventude, acontecendo de diversas formas. Mesmo na contemporaneidade, com o avanço tecnológico, percebe-se, de uma maneira reconfigurada, a necessidade que temos do encontro com outro.

Segundo a psicanalista Maria Rita Kehl, a adolescência é o período da formação de turmas, grupos, bandos, gangues, sendo estas ligações horizontais (“fraternas”, de sangue ou amizade) e de grande importância. A “turma” ajuda a passar das identificações infantis de referenciais mais expressivamente familiares e alcançar novos referenciais identificatórios.

No associativismo, talvez o grupo seja a forma mais concreta dos jovens se relacionarem com seus pares e desenvolverem parte significativa da sua percepção de mundo.

Conceito
Os grupos juvenis configuram-se como espaços de criação cultural e se tornam canais de articulação de identidades coletivas. Duas características que considero essenciais para conceituar este tipo de associativismo são: possuem alguma perspectiva coletiva e um determinado grau de “formalidade” e organização (que muitas vezes nem é percebido pelos próprios jovens). Neste sentido um fã-clube, uma banda de música, um grupo de igreja são exemplos de grupos juvenis, pois, além de afinidades pessoais e/ou amizades, há um objetivo comum que o fazem se encontrar de maneira “planejada” (a música, a religião, etc). Já, por exemplo, alguns jovens que estudam na mesma sala de aula ou moram na mesma vizinhança, e que são amigos e saem juntos são considerados grupo de amigos ou “turma”, mas não “grupo jovem”.

Também não podemos misturar com a pura idéia de “tribo”. No meio acadêmico, o conceito de tribalismo ganhou notoriedade a partir do sociólogo Michel Maffesoli. Embora o termo tenha se tornado corrente em veículos de comunicação, pesquisas, este é genericamente entendido como um determinado grupamento urbano característico (por exemplo:”skatistas”, ‘punks”, etc), também tem outra dimensão conceitual, mesmo que muitas vezes todas estas definições se sobreponham. Participar de um grupo pode até ultrapassar barreiras territoriais, mas o sentido de pertença vai além do seguir mesmo “estilo e/ou filosofia”.

Diálogo
Embora só 15% dos jovens brasileiros (segundo pesquisa do Projeto Juventude, publicada em 2004) participem de grupos jovens, podemos dizer que sua proliferação, principalmente em formatos menos institucionalizados e em ambientes mais populares, tem sido uma das marcas dessa geração e precisam ser valorizados e reconhecidos como espaço educativos. Hoje, há uma infinidade de novas formas de participação juvenil e o desenvolvimento destes grupos mostra a disposição juvenil para contribuir com um mundo melhor, indo na contramão dos discursos generalistas de que o “jovem é alienado” ou “desinteressado”.

No entanto, os grupos só serão lugar de crescimento, amadurecimento e formação se permitirem: o conhecimento de si, a descoberta do valor do outro e o despertar para consciência coletiva. Eles não podem ser “guetos”. Seja numa igreja, escola, ong ou praça, entender que fazem parte de um contexto e precisam estar abertos ao outro. Além de respeitar as diferenças e diversidade dentro do contexto grupal, também é necessária a abertura para o diferente. Uma experiência de grupo saudável permite o crescimento pessoal e coletivo, formando indivíduos que dialogam.

Uma Ficção-realidade
Vamos falar aqui de um exemplo fictício, e ao mesmo tempo concreto, baseado em muitas histórias reais: imagine uma banda de musica de uma paróquia que além de seus encontros de formação e ensaios, participa da reunião de coordenação dos grupos jovens da comunidade, trocam experiências e decidem ações conjuntas. O mesmo grupo conheceu outras bandas de musicas católicas de outras paróquias e decidiram organizar conjuntamente uma rede, onde compartilham composições, estudam musica, “emprestam” algum integrante quando necessário, organizam festivais, etc. Este grupo, também conheceu outras bandas do bairro, que não são ligadas a igreja, e viu que também havia uma falta de espaço para eles, assim como falta de incentivos culturais a bandas juvenis do município, fizeram um fórum, conheceram muitos outros…quando os integrantes deram por si, já tinham uma ligação com aquele espaço criado e já lutavam conjuntamente por melhoria do lazer, da educação e dos incentivos à cultura, já entendiam como funcionava as instancias governamentais e da sociedade civil. E nem por isso, deixaram de ser uma banda de música da paróquia, que tocava nos encontros e em algumas missas, mesmo com troca de alguns componentes no decorrer dos anos, continuavam sendo um grupo, tendo uma identidade. Se não fosse uma ficção, eu tenho certeza que não só a musica em si, mas vivencia dessa relação de grupo (que amadurece) fizeram toda diferença na formação e na construção do projeto de vida desses jovens que por ele passaram.

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